sábado, 28 de junho de 2008

Como diria Paula Toller - Eu tive um sonho...


Acordei hoje e, da mesma forma que faço todos os dias desde que comecei a estudar interpretação dos sonhos (tanto por Freud quanto por Jung), fiquei uns momentos na cama (aproveitando o calor do edredon e tentando evitar o fatídico momento que teria que me levantar para ir ao trabalho) trabalhando com o conteúdo dos meus sonhos.


Talvez por ter tido, nas últimas três noites, sonhos extremamente densos e coesos – e também muito ricos na interpretação, me deu um estalo hoje: e se, absolutamente, não houver nada de estrutura e/ou significado? Se na verdade talvez, e só talvez, nosso subconsciente/inconsciente/self/escambau simplesmente comece a produzir sonhos que se adéqüem aos nossos pressupostos?


Afinal, a base mesmo para a interpretação de sonhos é um pressuposto que não poderia nunca ser demonstrável praticamente (claro que não nego aqui as toneladas de supostas evidências empíricas): a de que os sonhos POSSUEM algum significado. Pode ser que esse pressuposto inicial, e a construção teórica ulterior dele advinda, acabe por moldar o tipo de sonhos que geramos. Talvez seja só uma questão de expectativa, uma questão do que esperamos encontrar.


Afinal místicos acabam por ter sonhos místicos, freudianos acabam tendo sonhos freudianos, jungianos não escapam de sonhar com símbolos antropológicos universais.


Em “O Nome da Rosa”, Umberto Eco tece uma trama de serial killer que se passa num mosteiro na Idade Média. O monge-Sherlok Holmes (vivido no cinema por Sean Conery nos dando a versão de hábito do seu personagem único - e único personagem - Bond, my name is Bond) percebe conexões entre a forma como as vítimas (outros monges) vão sendo assassinadas e passagens do livro do Apocalipse.


Perto do fim do livro, e da trama, o monge tem uma compreensão instantânea de conteúdo (também conhecida como “estalo” ou “insight”) e nota que os crimes não tinham nada a ver com as passagens do Apocalipse, por mais que todas as evidências se encaixassem perfeitamente no texto. Tinham sido obra de acaso; fortuitos, todos eles.
E Eco, através de seu personagem, nos leva à conclusão de que na verdade, não há estrutura. Percebemos a estrutura porque ESPERAMOS encontrar uma estrutura.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Do Potencial Mobilizador de Um Corpo Docente Deficitário [Ou Ode à MS]


AVISO: O POST ABAIXO É UMA OBRA DE FICÇÃO, QUALQUER SEMELHANÇA COM A REALIDADE NÃO PASSA DE MERA COINCIDÊNCIA

Muito se fala sobre os bons professores. Sobre como eles podem marcar a vida de seus alunos e elevá-los a novos e inauditos patamares na construção do conhecimento. Mas não hoje. Hoje devo prestar uma homenagem aos professores que se encontram no outro extremo do espectro.



Queria hoje homenagear aqueles tantas e tantas vezes menosprezados, alcunhados, ridicularizados e massacrados pela infâmia de seus estudantes.

Aqueles professores [de uma faculdade de psicologia muito longe daqui – claro, isso não acontece por aqui] que apesar de suas graduações e décadas de experiência são incapazes de falar “síndrome de Down”, “catarse” ou mesmo sequer coisa com coisa.

Aqueles professores que, como os dementadores dos livros de Rowling sugam através de suas aulas, digamos, pouco estimulantes, toda vontade de viver de seus estudantes; aqueles cuja mera presença vai deprimindo os alunos [do latim, ser sem luz] até o ponto de em 45’ de exposição os discentes estarem perdidos em um mundo de fantasias, pensando em estar em lugares mais saudáveis e divertidos do que aquela sala de aula [como Auschwitz ou o nono círculo do inferno].

Aqueles professores que ministram as mesmas disciplinas há tanto tempo que suas aulas vêm prontas em cadernos amarelados, e que só leram um único livro daquela disciplina na vida – de um autor cujas iniciais parecem sigla de gás que ofende à camada de ozônio, ou que nem leram nenhum livro da disciplina e contam que ninguém vai ousar ler as 700 páginas de insanidade sartreana ou os escritos de um teólogo angustiado de dois séculos atrás para perceber o nível de enrolação elevada a estado de arte que constitui a prática didática desses professores.

Enfim, aqueles professores que conseguem que Freud seja um místico adepto da cabala, que Sartre deixe de ser ateu e comunista, que Wundt ao desenvolver suas pesquisas se inspire num texto escrito dez anos DEPOIS, que os ratos mudem a FOLHAGEM durante o cio, que o testemunho de Ana Freud sobre a morte do pai seja inválido pois, afinal de contas, ela era uma dissidente teórica.

A todos vocês, especialmente aqueles que são continuamente e seguidamente impedidos de, ano após ano, elevarem-se a outros patamares na hierarquia acadêmica por nunca serem aprovados nos exames mínimos, que precisam urgentemente abraçar árvores e que entendem que o contato íntimo com certos seres não-iluminados permite uma avaliação didática mais equânime e justa, meu muito muito e mais sincero obrigado.

São vocês que nos permitem sonhar com um eldorado de um ambiente acadêmico revolucionário e moderno – mais ou menos como os da Alemanha de duzentos anos atrás – e mais, nos mobilizam a ponto de, apostolicamente, batermos o pó de nossas sandálias.

Uma salva de palmas [em pé] a todos vocês.


PS – pra achar a imagem de exibição no Google digite “meretriz de Satanás” e procure no link de imagens.