domingo, 28 de outubro de 2007

“Psicanálise não é psicologia” (?)

Do meu humilde ponto de vista a frase acima – aliás, o chavão acima, repetido até ninguém ser mais capaz de suportar, pelos psicanalistas e os demais doutrinados – só pode resultar de dois fatores: ou de uma tremenda desonestidade intelectual ou de falta de análise (trocadilho nefando) e verificação crítica. E digo isso porque a afirmação não resiste ao menor escrutínio lógico.

Já que a lei da parcimônia diz que devemos escolher sempre a explicação mais simples – e também a Lei de Murphy, de forma muito menos delicada, nos instrui a não considerar como malícia o que pode ser passivelmente atribuído à bobagem – tendo a acreditar na segunda opção.

E há evidências a esse favor. A frase é repetida tantas e tantas vezes sem nenhuma argumentação que lhe dê sustento que vai, num processo de lavagem cerebral, se fixando na mente dos indivíduos-ouvintes que em algum momento passam a acreditar que isso é verdade. Quando questionados do por quê da afirmação, não conseguem articular seu pensamento, mas estamos tão acostumados a deixar que pensem por nós que o fato nem deve nos causar espanto.

Quando dizemos que algo “não é” certa coisa, precisaríamos ser capazes de definir que certa coisa é essa. Quando muito pressionados, certos adeptos, recentemente, afirmaram que “psicanálise é algo completamente diferente de psicologia”. A pergunta que resta óbvia é de que psicologia se está falando e exatamente em que consiste essa diferença.

A resposta foi de que “a psicologia é ciência e entende num paradigma cartesiano, enquanto a psicanálise não”.

Que psicologia, afinal, é cartesiana? E o que seria ciência dentro dessa distinção? Por que veja, e esse é o ponto crucial da questão, a psicologia é uma forma de conhecimento pré-paradigmática (e eu ouso dizer que, considerando as cabeças duras que a compõe, possivelmente aparadigmática) – o que quer dizer, trocando em miúdos, que não existe UMA psicologia.

Não lembro do número exato, mas há mais de cem abordagens reconhecidas pela APA (associação de psicologia norte-americana). Por exemplo, você poderia dizer que o behaviorismo clássico é cartesiano, e talvez até que o humanismo de Maslow também. Mas dizer isso da abordagem existencial, por exemplo, não tem nenhum sentido.

Por outro lado o raciocínio de causa-e-efeito pode ser claramente percebido, embora não na relação de um-elemento-pra-um, mas dentro de uma relação sistêmica, dentro da própria psicanálise (bem como do behaviorismo radical).

Vale notar que Baum, teórico organizador do behaviorismo radical e aluno de Skinner, começa o seu livro em que esquematiza o behaviorismo radical questionando se a ciência do comportamento é psicologia.

O que todas as abordagens poderiam fazer também – o que “une” mal e parcamente a psicologia como um conjunto seria o seu objeto de estudo, que também é mal e parcamente definido.

(parêntese para “préola” do ensino superior: “A psicologia é o que estuda os fenômenos psicológicos”- tu jura? E a geografia é o que estuda os fenômenos geográficos, a matemática os matemáticos etc.)

E quanto à alegação de ciência, entendo que quem falou referia-se (pela referência à perspectiva cartesiana) a um paradigma positivista. O que de novo é uma inverdade dependendo da abordagem da psicologia que você adota. Certamente, com sua alegação de basear-se na prática analítica, a psicanálise é muito mais científica do que um grande número de outras abordagens da psicologia (por exemplo o pré-citado Maslow).

Observe que apesar da questão de Baum, você não vê, por exemplo, os analistas do comportamento a dizer “a ciência do comportamento não é psicologia” até os ouvintes encherem tanto o saco a ponto de concordar ou então dar um tiro na própria cabeça.

Portanto, psicanálise é tão psicologia quanto qualquer outra das chamadas abordagens. De repente nem há psicologia - Como uma pessoa próxima e sábia definiu: a psicologia é um grande vazio incômodo.

De qualquer modo, o que eu acho que deveria ser questionado, até dentro de uma perspectiva analítica, é o que leva um grupo de pessoas a repetir tanto um chavão que os torna diferenciados em relação aqueles que os cercam?

2 comentários:

Marcos disse...

a psicologia é um grande vazio incômodo[2]

anah25 disse...

vocês, hein?... sempre afanando minhas frases existenciais e outras ...peguei!
"A psicologia é um grande vazio incômodo"___by voz sensata da minha cabeça